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sábado, 1 de janeiro de 2022

ESBOÇO (2022)



ESBOÇO (2022)


“Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço.” - Milan Kundera, “A insustentável leveza do ser”


Primeiro dia do ano! Aquele dia que muitos elegeram para “fazer acontecer”! Intermináveis listas com promessas de emagrecer, cuidar do corpo, perdoar familiares, parar de beber ou fumar ou, ainda, abrir um negócio, ser mais atencioso com a família e, quem sabe, ser mais “espiritualizado”.

Acredito que o Kundera tem razão quando afirma que “a vida parece sempre um esboço”. Não há trailer ou prévia dos dias que virão. Claro que quem já está no palco há mais tempo, tem a vantagem da experiência, contudo, como em esquetes improvisadas, nunca sabemos como será a próxima cena, como se comportarão os outros atores, quais as personas que usaremos e tudo mais.

A brilhante escritora Lya Luft, que faleceu esta semana, em seu pequeno livro “Múltipla escolha” faz essa mesma comparação entre vida e teatro. Somos atores principais, coadjuvantes, diretores, espectadores, colaboradores ou, até mesmo, fazemos parte do cenário. E o maior problema, talvez, seja nos sentirmos tão falhos e despreparados pois “se falharmos, quem haverá de nos desculpar, de nos aceitar, onde nos encaixaremos, neste universo de exitosos, bem-sucedidos, ricos e belos? Pois não se permite o erro, o fracasso, nesse ambiente perfeito” (Múltipla Escolha da Lya Luft).

Como diria meu querido poeta Fernando Pessoa, “arre... estou farto de semideuses”!!!

Sim, vivemos um mundo de tantos “exitosos” e “semideuses” que nunca “levam porrada”! “Onde é que há gente?”, continua Pessoa no seu maravilhoso “Poema em linha reta”!

Bem, também tenho algumas metas e ambições para este ano. Sem dúvida, é uma benção planejar, prospectar ou sonhar... mas, quero um pouco de pé no chão. Se a vida é esboço, somos rascunhos!

“Múltipla escolha” significa, entre outras coisas, que há portas que se abrem e se fecham e que faremos muitas escolhas certas e erradas.

O que posso desejar, portanto, é que nos próximos atos, a gente possa sorrir mais e ter muito mais leveza pois, nunca sabemos o que vem depois!

FELIZ ATOS NOVOS!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

"PATERNIDADE É RASCUNHO"


 

Eu sei que preciso entender o conflito. Mas, silêncio e vácuo também ferem...

Se "paternidade é rascunho", sinto-me o "rascunho do rascunho do rascunho"! Bem aquém do gostaria!

Não sei ainda se concordo com o Carpinejar... preciso buscar as oposições que fiz ao meu pai. Mas, é tarde para mim!

Confio em Deus... Ele cuida, apesar de mim!

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O QUANTO AMO MINHA FILHA PARA ENTENDER SUA IMPLICÂNCIA
Por Fabrício Carpinejar

Minha filha hoje completa 24 anos.

Minha filha não usa o meu sobrenome para não criar ligação direta comigo.

Agendar um encontro com minha filha é uma operação de guerra. Chamo para almoço, jantar, café, viagem, cinema, e costuma arrumar uma desculpa e uma urgência para não aceitar.

Minha filha não comenta os meus textos. Muito menos revela se leu os meus livros.

Minha filha não usa as redes sociais para não criar parentesco com as minhas postagens.

Minha filha me deixa no vácuo quatro dias numa mensagem – eu até uso emojis para sensibilizá-la, sem efeito.

Minha filha não atende às minhas ligações – depois de algum tempo, pergunta se eu telefonei.

Minha filha não sofre com os meus problemas - avisa que é para parar de drama.

Minha filha não se emociona com o meu abraço escandaloso na rua, pelo contrário, faz um gesto de menos.

Minha filha reclama quando beijo o seu rosto e roço as bochechas com a minha barba.

Minha filha sugere que tem vergonha de mim, e é, no fundo, orgulho. Quando o filho se opõe ao pai, significa respeito e admiração. Eu não fracassei, eduquei alguém capaz de me encarar de igual para igual e me testar para descobrir o quanto a amo.

Não me elogiar não quer dizer que ela não está me enxergando.

Na hora em que precisar, surgirá batendo à porta e oferecerá o seu colo. Não sofro do desespero de perdê-la, estou eternamente em seus traços e manias.

Identifico o seu esforço de lutar contra a saudade, e reconheço o seu mérito.

Você só tenta escapar daquilo que é importante. Ela procura construir a sua personalidade longe de minha influência.

Eu compreendo: realizei semelhante oposição aos meus pais, escritores.

A beleza do conflito é que não existe bajulação, a relação é profundamente mais sincera.

Ela vem aprendendo a se defender do mundo comprando briga em casa. Há sempre um porém. Já entendi que não está à minha sombra. Cursa Letras, porém confessa que é para seguir um caminho diferente do meu. Escreve, porém mente que não é escritora. Compõe e canta, porém guarda as suas músicas para o seu próprio prazer.

Ela não admite o quanto somos parecidos. Logo descobrirá que não somos. Ela é muito melhor do que eu. Paternidade é rascunho.

Publicado em Jornal Zero Hora em 26/12/2017.