Confesso! Confesso que a “folha branca” causa-me desconforto e pânico. Da mesma forma que carrego certa “síndrome do impostor”, transfiro isso para a escrita pois tenho a mesma sensação. Sensação de ansiedade, um certo stress e de que serei “julgado” pelo impiedoso tribunal dos meus leitores imaginários. Sim, meus leitores são imaginários porque talvez eu tenha, no máximo, uma meia dúzia de pessoas que levam à sério algo que eu escreva.
O fato é que quase todos os dias escrevo alguma coisa, mas não é nada sistemático. Um comentário em alguma rede social, um insight de algo que li, uma oposição a algo que não concordei...
Dizem que escrevo bem... E como todo e qualquer elogio, minha tendência é de retração. De pensar o quanto o outro está equivocado quanto ao que escrevi. E, veja, nem sempre as ideias são minhas, me apoio “em ombros de gigantes” como dizia o célebre Isaac Newton.
“Para escrever eu preciso supor que me queres
Acreditar que desejas meu corpo magro de papel
Crer que cobiças as curvas de minhas letras
E o fruto da minha mão”
Ana Maria Netto Machado
Em parte, meu receio está em “transgredir”! Penso no título de um livro da Lya Luft (“gigante” da literatura e da escrita) que se chama “Pensar é transgredir”. Quando pensamos e quando escrevemos cometemos desatinos dentro de nós. Tais desatinos, ou transgressões, e essa é a cerne da questão, nos colocam na “berlinda” ou diante do “grande tribunal” (Ok! Entendo que esse tribunal é imaginário, também). O desabafo, o conto, o desejo, a assimetria, as contradições, as ambiguidades, tudo... podem se encontrar no texto que ao mesmo tempo alivia e pode causar desconforto. E o desconforto está em descobrir quem somos.
“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”
José Saramago
Escrever é sair de mim mesmo e, também, mergulhar em águas profundas. “Dangerosíssima viagem” (como bem disse Drummond) para onde estão aquelas sombras.
Por isso, escrevo “à flor da pele”. Preciso “conhecer como sou conhecido”. Porque preciso ouvir minha própria voz.
Cláudio Regis
