Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

USANDO BORBOLETAS (17/30)

 



USANDO BORBOLETAS

 

“A maior riqueza do homem 
é a sua incompletude. 
(...) 
Perdoai 
Mas eu preciso ser Outros. 
Eu penso renovar o homem usando borboletas. 

 - Manoel de Barros 

 

Para Manoel de Barros, “ser Outros” era sair do casulo. Sair da rotina. Se aventurar em prosas e poesias tornando-se tão “Outro” quanto podia. Não aceitava ser apenas aquele sujeito que mantém aquela rotina de todos os dias. Ele precisava se “metamorfosear” de alguma forma.


Fernando Pessoa, talvez tivesse a mesma sensação de incompletude e por isso criava tantas “almas” quanto possível. Dizia ele:


"Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem achei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem alma não tem calma."


Talvez ser “outro” seja apenas ser você mesmo! Apenas sair de sua caverna ou casulo... enxergar, como disse o Saramago, a ilha saindo da ilha.


Confesso que ando um tanto cansado! Já é tarde... mas, “não quero ser apenas um sujeito que abre portas, (...) que olha o relógio” para entrar ou sair de casa todos os dias, de sol a sol... pois, já dizia Salomão, “isso nada faz sentido”.


Sei que estou “viajando”! Mas, a borboleta me renova e me permite ser outro.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

ESCREVENDO À FLOR DA PELE

 



Confesso! Confesso que a “folha branca” causa-me desconforto e pânico. Da mesma forma que carrego certa “síndrome do impostor”, transfiro isso para a escrita pois tenho a mesma sensação. Sensação de ansiedade, um certo stress e de que serei “julgado” pelo impiedoso tribunal dos meus leitores imaginários. Sim, meus leitores são imaginários porque talvez eu tenha, no máximo, uma meia dúzia de pessoas que levam à sério algo que eu escreva.


O fato é que quase todos os dias escrevo alguma coisa, mas não é nada sistemático. Um comentário em alguma rede social, um insight de algo que li, uma oposição a algo que não concordei...


Dizem que escrevo bem... E como todo e qualquer elogio, minha tendência é de retração. De pensar o quanto o outro está equivocado quanto ao que escrevi. E, veja, nem sempre as ideias são minhas, me apoio “em ombros de gigantes” como dizia o célebre Isaac Newton.


“Para escrever eu preciso supor que me queres
Acreditar que desejas meu corpo magro de papel
Crer que cobiças as curvas de minhas letras
E o fruto da minha mão”

 Ana Maria Netto Machado


Em parte, meu receio está em “transgredir”! Penso no título de um livro da Lya Luft (“gigante” da literatura e da escrita) que se chama “Pensar é transgredir”. Quando pensamos e quando escrevemos cometemos desatinos dentro de nós. Tais desatinos, ou transgressões, e essa é a cerne da questão, nos colocam na “berlinda” ou diante do “grande tribunal” (Ok! Entendo que esse tribunal é imaginário, também). O desabafo, o conto, o desejo, a assimetria, as contradições, as ambiguidades, tudo... podem se encontrar no texto que ao mesmo tempo alivia e pode causar desconforto. E o desconforto está em descobrir quem somos.


“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”

 José Saramago


Escrever é sair de mim mesmo e, também, mergulhar em águas profundas. “Dangerosíssima viagem” (como bem disse Drummond) para onde estão aquelas sombras.


Por isso, escrevo “à flor da pele”. Preciso “conhecer como sou conhecido”. Porque preciso ouvir minha própria voz.


Cláudio Regis